Sempre tem aquela banda underground que a gente ama, aquela que vive na margem, se alimenta de fita-cassete e despreza o mainstream como se fosse veneno. Aí o sucesso bate na porta, a gravadora grande acena com um cheque gordo e, de repente, o veneno parece ter um gosto de champanhe. O que acontece quando os heróis do subsolo são seduzidos pelo brilho do topo? Digamos que o cardápio muda – e nem sempre para melhor.
L7: Punks Comendo Filé (e se Orgulhando Disso)
Em 1994, o L7, aquela banda de Los Angeles que cuspia fuzz e atitude como poucos, assinou com uma major. E, veja bem, eles não se desculparam por isso. Pelo contrário. O que a Rolling Stone relata de uma entrevista da época é que as gurias estavam “pedindo o item mais caro do menu”. Tipo, punk pra caralho.
É a piada perfeita: a banda que simbolizou uma certa raiva e independência agora podia bancar o jantar chique. Mas não era sobre luxo, era sobre a atitude de poder fazer isso. Uma afronta ao sistema que, ironicamente, pagava suas contas. A rebeldia muda de forma, mas não de essência. Se antes era cuspir no palco, agora era pedir o corte mais caro e deixar a conta para quem os subestimou. É o tipo de vitória que só o rock, na sua versão mais cínica, pode oferecer.
Hole e Melissa Auf der Maur: O Som da Introspecção Pós-Grunge
Enquanto o L7 celebrava a nova fase com um bom bife, outras figuras do universo grunge dos anos 90 estavam em um momento mais introspectivo. Melissa Auf der Maur, a baixista que passou pelo Hole e Smashing Pumpkins, anunciou seu primeiro material inédito em mais de 15 anos. E não é um álbum barulhento de rock. É algo bem mais pessoal.
Segundo o Stereogum, ela vai lançar BASS WOMB ROOM: My ’90s 4-Track Demos x Field Recordings. O título já entrega: demos caseiras e gravações de campo. É a antítese do megafazer: um retorno às raízes da criação, longe dos holofotes e das expectativas de uma gravadora. A Louder Sound complementa com as próprias palavras de Melissa: “Esses sons são o lado quieto e privado da garota que assinou com uma grande gravadora americana de rock.”
É um contraste interessante. Enquanto o L7 abraçava as vantagens financeiras para manter a atitude, Melissa se afasta da maquinaria para resgatar a essência bruta, o som que existia antes de tudo ficar grande demais. O que ambos mostram é que o sucesso, ou a falta dele, nunca é o ponto final. É só mais uma fase, mais uma conta para pagar – ou para ignorar.
Sex Pistols e o Biopic que Ninguém Gostou
E por falar em autenticidade e rebeldia, o filme Sid & Nancy, de 1986, sobre Sid Vicious e seus Sex Pistols, é um caso clássico de como a representação do punk pode ser complicada. Gary Oldman, Courtney Love e até Iggy Pop estiveram envolvidos. Mas a Louder Sound lembra que “o Sex Pistols odiou”.
Eles odiaram porque, bem, era a história deles, mas contada por outros. E, claro, a mitologia do punk é tão forte que qualquer desvio da “verdade” (ou do que eles gostariam que fosse a verdade) é uma traição. O sucesso de um filme sobre uma banda anti-sucesso? Ironia que se preza.
No fim das contas, a indústria do rock é um bicho esquisito. Você pode acabar pedindo o filé mais caro do menu, ou voltando para as suas demos caseiras, ou assistindo à sua própria história ser contada de um jeito que você detesta. O importante é que a música continue, de um jeito ou de outro.