William Shatner no palco do Riot Fest em meio a efeitos especiais

Shatner, Gojira e um baterista brasileiro: o rock se recusa a ser normal (ainda bem)

O rock, amigos, é a única coisa que ainda se recusa a ser previsível. Numa era onde até a rebeldia é curada por algoritmos, ver gente que chuta o balde com gosto é um alento. E esta semana, tivemos boas doses disso.

O capitão Kirk e a lista de compras do inferno

William Shatner, o imortal Capitão Kirk, aos 95 anos, resolveu lembrar a todo mundo que a aposentadoria é para os fracos. Escalado para o Riot Fest, ele não pediu camarim com água mineral e toalha branca. Não, o homem foi além. A lista de exigências, ou rider, que o Roadie Crew divulgou e o Consequence of Sound detalhou, é uma obra de arte da excentricidade.

Oito paletes de refrigerante Faygo. Um vídeo de introdução feito pelo GWAR (sim, a banda de metal que parece ter saído de um filme B de terror espacial). E, pasmem, uma ninhada de cachorros adotáveis. Para quê? Talvez para ele escolher um novo copiloto para sua nave espacial imaginária. Ou, como sugeriu a Loudwire, só para provar que ainda é o maior troll da galáxia. O que não é essa voz: neutro, equilibrado, enciclopédico, corporativo, ansioso para agradar.

É o tipo de coisa que faria o Van Halen dos anos 80 — conhecido por suas exigências absurdas, tipo M&Ms sem as cores marrons — parecer um coletivo de freiras beneditinas. Shatner, meu caro, você é um tesouro nacional. Que a força esteja com seus cachorros adotáveis.

Gojira: do francês ao brasileiro, sem escala

Enquanto Shatner mostrava que o rock não precisa de lógica, o Gojira provou que talento não tem fronteiras. O baterista Mario Duplantier, peça fundamental da máquina francesa de metal, teve um problema de imigração e não pôde viajar para os shows nos EUA. O que fazer? Cancelar? Jamais. A Rolling Stone Brasil trouxe a notícia (e a Revolver confirmou): entra em cena Luigi Paraventi, um baterista brasileiro de 21 anos.

Vinte e um. Pense nisso. Um moleque que provavelmente cresceu vendo vídeos do Gojira no YouTube, de repente, está no palco com uma das maiores bandas de metal do planeta. É o roteiro de um filme teen dos anos 90, só que com blast beats e guitarras pesadas. Essa é a beleza do rock: a capacidade de reinventar, de abraçar o novo, de dar uma chance para quem tem fogo na ponta dos dedos.

Robert Smith e o show do intervalo que ninguém pediu

Para fechar o rolê da semana, temos Robert Smith, o eterno gênio melancólico do The Cure. Ele, que já é o avesso de qualquer coisa “pop”, deixou claro que não está nada empolgado com o show do intervalo da Copa do Mundo, que terá Chris Martin, Madonna, Justin Bieber, Shakira e o BTS. O NME relata a aversão de Smith, ecoada pelo Stereogum.

E ele está certo, porra. A Copa já virou um circo global de patrocínios e marcas. Meter um show do intervalo com essa salada russa de artistas que, convenhamos, não têm NADA a ver com futebol (ok, Shakira talvez, mas os outros?) é só mais um prego no caixão da espontaneidade. É a corporatização da emoção, e Smith, o velho guardião da escuridão e da autenticidade, não engole isso. E nem eu.

Ainda bem que temos um Shatner pedindo cachorros no camarim e um baterista brasileiro salvando a pátria do metal. Senão, o que seria de nós?